Mais que um profissional responsável por exames e laudos, o médico do Trabalho deve estar envolvido na rotina dos trabalhadores, ganhar sua confiança e desenvolver ações de prevenção. Esta é a visão do professor Satoshi Kitamura, que acumula mais de quatro décadas de atividades voltadas ao setor prevencionista. Formado inicialmente pela EPM (Escola Paulista de Medicina) da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) em 1971, ele trocou a área de Cirurgia para ingressar numa especialidade nova, da qual tinha ouvido falar poucas vezes.

Mais tarde, Satoshi concluiu doutorado em Ciências Médicas pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), em 2000; e mestrado em Saúde Pública pela Universidade de Michigan, nos EUA, em 1974. Também cursou especialização em Medicina do Trabalho pela Unifesp e em Toxicologia pelo Instituto de Saúde Ocupacional (The Institute Of Occupational Health) da Finlândia. Atuou como médico do Trabalho em diversas empresas, entre elas, Rhodia e Shell. Atualmente, é diretor da Divisão de Saúde Ocupacional da Unicamp e docente em Saúde do Trabalhador.

Nesta entrevista, concedida à Proteção às vésperas de sua aposentadoria, o especialista comenta sua carreira, avalia a qualidade da formação oferecida aos prevencionistas e novidades na atuação dos médicos do Trabalho.

De que forma o senhor ingressou na área de Saúde do Trabalhador?
Quando criança, eu queria ser médico cirurgião. Portanto, cursei faculdade na Escola Paulista de Medicina. Entrei na residência médica do Hospital do Servidor Público, na Cirurgia, e estava me preparando para ser cirurgião. Foi então que apareceu a oportunidade de conhecer a Medicina do Trabalho. O doutor René Mendes, meu colega de colégio, havia iniciado trabalho na Fundacentro e me convidou a conhecer a área.

Hoje, damos aula de Medicina do Trabalho em escolas médicas, mas naquela época não havia nenhum tipo de educação na área de Saúde do Trabalhador, Saúde Ocupacional, Medicina do Trabalho. Isso foi mais ou menos em 1972, um ano depois de eu me formar na universidade. Achei bastante interessante o convite para conhecer a Fundacentro. Naquele ponto, eu me perguntava se iria gostar e aguentar os plantões, a rotina como cirurgião. Assim, decidi deixar a residência em Cirurgia.

Foi quando o senhor começou a atuar como médico do Trabalho?
Comecei em uma época histórica. Afinal, 1972 foi o ano em que saíram as primeiras legislações mais diretas, portarias 3236/3237, que deram início a uma nova era em SST. Quando fui trabalhar na Fundacentro, junto ao René Mendes, eu não havia assistido a nenhuma aula sobre Medicina do Trabalho, nem sabia do que se tratava. Assim que comecei, quis fazer um curso de Medicina do Trabalho fora do país.

Um mês depois de ser admitido pela Fundacentro, iniciei um curso de inglês. Em seguida, fiz minhas inscrições em universidades norte-americanas e fui admitido na Universidade de Michigan, nos Estados Unidos. A Fundacentro investiu na minha viagem. Fiquei um ano lá, fiz mestrado em Saúde Pública, na área de Higiene Ocupacional em Michigan. Em seguida, fui para o Instituto Ocupacional da Finlândia, um dos mais importantes do mundo, e lá me formei em Toxicologia Ocupacional. A prática de Medicina do Trabalho no Brasil começou naquela fase, com a publicação da NR 4 (SESMT). A Fundacentro liderou a formação de profissionais que pudessem satisfazer a nova legislação.

Como está a prática da Medicina do Trabalho comparada a décadas atrás?
Mudou muito. Há 13 anos estou fora da atividade de médico do Trabalho, sou docente em tempo integral. Ano passado, fui nomeado diretor da Divisão de Saúde Ocupacional, que é a prática da Medicina do Trabalho para os servidores da universidade. Na Unicamp, há 10 mil servidores. É um serviço médico grande, importante e surpreendente. Primeiro, porque lido com o servidor público; segundo, porque é uma instituição de educação.

A grande maioria dos funcionários está empregada pela área de saúde, no hospital e em todo o complexo de saúde. A população pela qual sou responsável hoje é totalmente diferente do que eu estava acostumado. Trabalhei na General Motors, na Rhodia, na Shell, além de uma empresa chamada Albarus. Trabalhei diretamente na prática de Medicina do Trabalho junto ao chão de fábrica. As doenças e os problemas que aparecem hoje são absolutamente diferentes. Não é mais tão comum encontrarmos intoxicações graves. Vejo isso no próprio ambulatório que temos na Unicamp, pois recebemos poucos casos de doenças ocupacionais.

Quando comecei minha carreira, trabalhei em ambulatório de doenças ocupacionais na Escola Paulista de Medicina, que tinha convênio com a Fundacentro. Naquela época, atendíamos muitas intoxicações, dermatoses ocupacionais, várias doenças diretamente relacionadas ou causadas pelo trabalho. Hoje, o que vemos mais são casos de LER/DORT. Os fatores que causavam doenças naquela época, em geral, eram mensuráveis. Medíamos a concentração do chumbo no ambiente de trabalho, a concentração de mercúrio. Hoje, o que o trabalho pode causar ao indivíduo é invisível. Um exemplo é o assédio moral, que se tornou comum, sendo um tipo de fator invisível que pode interferir muito na vida das pessoas. A área de saúde mental no trabalho está tomando uma importância bastante grande.

Fonte: Revista Proteção

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